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A alegria do cristão: aprender com Nossa Senhora, Imaculada Conceição

A vida cristã devia ser mesmo assim: uma risada contínua. Uma grande felicidade! São Josemaria escreveu, cheio de razão: “Cada vez estou mais persuadido: a felicidade do Céu é para os que sabem ser felizes na terra” (Forja, n. 1005).

Sábado, 8 de Janeiro de 2022

8º dia da Novena da Imaculada Conceição (7 dez.): Alegria

 “N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos” (Ef 1, 4)

Com alegria aproximamo-nos do final destes dias de preparação para a solenidade da Imaculada Conceição. Aprender de Maria as virtudes humanas, base das virtudes sobrenaturais, da santidade.

Dessa santidade a que estamos chamados. Como gostava São Josemaria de hino da carta aos Efésios que escutámos na 2ª leitura: “Bendito seja o Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que no alto do Céu nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. Foi assim que Ele nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis na sua presença, no amor” (Ef 1, 3-4)

Alguns pensam que para ser felizes no Céu, temos que ser tristes nesta terra, temos que sofrer aqui em baixo. Que distorção da vida cristã, que desconhecimento do que é a santidade.

Importância de conhecer biografias de santos: Vida de Jesus, para começar; S. Paulo; S. Ambrósio que hoje celebramos (aos 30 anos era cônsul de Milão; o imprevisível aconteceu quando falou à multidão com tanta sabedoria e autoridade que se ouviu um grito: “Ambrósio bispo!”, apesar de ainda ser um catecúmeno), de S. Agostinho e de S. Mónica; S. António e S. Vicente; S. Isabel de Portugal; S. Francisco Assis e S. Francisco Xavier; S. Teresa de Ávila; S. Teresinha; S. Josemaria Escrivá; S. Teresa de Calcutá; pastorinhos de Fátima; beato Carlo Acutis. Quantas destas já lemos? Se calhar conhecemos bem a vida dos atores e atrizes de cinema, dos jogadores de futebol e cantores de rock, mas não conhecemos a vida dos santos. Daqueles que melhor nos ensinam o caminho do Céu. Dos melhores amigos de Jesus.

Vidas verdadeiramente empolgantes. São os verdadeiros heróis. Daqueles que viveram em abundância.

Às vezes temos demasiada pressa para as coisas de Deus. Ou, pouco tempo. Confesso que foi uma das principais dificuldades, não me alongar nas homilias. Porque sei que se um jogo de futebol tiver 90 minutos sem prolongamento ou uma série tiver 8 episódios só na primeira temporada, não há problema. Mas, se for para dar esse tempo a Deus já nos custa mais. De qualquer modo, concordo que as homilias não podem ser longas, até porque esta Missa já é ao final dum dia de trabalho e ainda é preciso ir para casa fazer o jantar.

Pelo menos vou tentar que não adormeçam. Digo isto porque ontem uma pessoa que aqui está me enviou uma mensagem a pedir que lhe enviasse a homilia porque adormeceu e só acordou quando todas as pessoas começaram a rir com uma história que eu contei. E, claro, ficou cheio de vergonha (ao menos isso) e cheio de pena por não ter sabido o motivo da risada.

Acho que fizeram bem em não o acordar. Lembrei-me daquela história do senhor que adormeceu na homilia e o filho dá uma cotovelada à mãe para o acordar. E diz o mãe: “Eu, acordá-lo? Então foi o padre que o adormeceu e eu é que o acordo?”

Mas a vida cristã devia ser mesmo assim: uma risada contínua. Uma grande felicidade! São Josemaria escreveu, cheio de razão: “Cada vez estou mais persuadido: a felicidade do Céu é para os que sabem ser felizes na terra” (Forja, n. 1005).

Aceitem a minha sugestão de ler algumas biografias de santos e comprovarão que é verdade. E, sobretudo, procurem meter mais Deus nas vossas vidas e experimentarão que é mesmo assim. A felicidade aqui e depois, para sempre, no céu (“fomos constituídos herdeiros”).

  1. “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo!” (Lc 1, 28)

Há umas palavras que certamente todos repetimos muitas vezes ao dia, na Ave Maria: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1, 28). É a recordação da saudação do Arcanjo Gabriel quando se apresenta, como embaixador do céu, para lhe comunicar a feliz notícia de que foi a eleita para ser a Mãe do Redentor. Tinha chegado o tempo d´Aquele que os profetas anunciaram que viria para resgatar-nos do pecado original. E Maria era a escolhida.

Alegra-te, porque o Senhor está contigo. Foi preparada, desde antes de nascer, para ser a Mãe de Jesus. Por isso proclamamos ser a Imaculada Conceição. Alegra-te porque está cheia de Deus. É o pecado que nos afasta de Deus. Em Maria, nada a separava de Deus.

Como seria a alegria na vida de Nossa Senhora?

Uma alegria humilde. Vemo-lo na surpresa pela notícia; e, depois, na resposta que dá ao Anjo: “Eis a Escrava do Senhor”.

Uma alegria serena. Às vezes, as pessoas do mundo que ser feliz, que ser alegre é dar grandes gargalhadas. Mas a alegria de Nossa Senhora não tem nada a ver com as gargalhadas alarves daqueles grupos que se reúnem, excitados, à volta de uma mesa com muita comida e muita bebida. Nem com a pseudo-alegria duma pista de dança das discotecas. Nem com a pretensa alegria dum golo num jogo de futebol.

Não estamos a imaginar Nossa Senhora a rir destemperadamente às gargalhadas.

“A alegria que deves ter não é aquela a que poderíamos chamar fisiológica, de animal sadio, mas uma outra, sobrenatural, que procede de abandonar tudo e de te abandonares a ti mesmo nos braços carinhosos do nosso Pai-Deus” (Caminho, n. 659).

Isto não quer dizer que os cristãos não gostem de se divertir, de se reunir à volta da mesa, de dançar, de festejar um golo de futebol. Nossa Senhora também se importou quando faltou o vinho naquela boda. E que alegria teve ao perceber que o Seu Filho ia mesmo fazer o milagre.

Mas era uma alegria diferente. Uma alegria interior. Que, evidentemente, se transmitia exteriormente.

Maria, que soube descobrir a novidade trazida por Jesus, cantava, na visitação à sua prima Isabel: “o meu espírito se alegra” (Lc 1, 47). Era sem dúvida, uma alegria contagiante. Que bom seria de Nossa Senhora. Nem podemos calcular o clima de felicidade que os discípulos de Jesus teriam naquelas longas tertúlias com Jesus e Nossa Senhora, nesses serões em que Jesus lhes explicava melhor o sentido das parábolas e lhes instruía acerca dos segredos do reino dos céus. Acho que os discípulos disputavam o lugar mais próximo de Maria, com a mesma força com que os filhos discutem para ir no lugar à frente, no carro. Por isso São João, o discípulo que Jesus amava, jamais se esqueceu no momento em que a sua vida mudou para sempre, o da sua vocação: “Eram as quatro da tarde” (Jo 1, 39). A partir dali a sua vida tinha sido uma maravilha. E melhor ficou quando, junto à cruz, ouviu de Jesus aquelas palavras: “«Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua” (Jo 19, 26-27). E, já pensaram, na emoção de São Lucas (o pintor de Maria) e dos outros enquanto Nossa Senhora lhes contava os episódios da infância de Jesus?

Uma alegria simpática, de rosto amável e olhar puro. Como saberia compreender os defeitos dos apóstolos. Ao mesmo tempo que, também com um olhar forte, os estimulava a serem mais generosos.

Uma alegria interior, cheia de paz, fruto do cumprimento da vontade de Deus. E, portanto, compatível com a dor junto à cruz do seu Filho. Porque era igualmente uma alegria na fé, na certeza da ressurreição.

Uma alegria com os outros. Não se alegra sozinha, de forma egoísta. Alegra-se no céu com todos os anjos e santos de Deus. Alegra-se por ver os nossos esforços por sermos melhores cristãos. Alegra-se, enfim, por fazer os outros felizes. E, por isso, pensa mais nos outros que em si.

Aliás, estou convencido que aqui está o segredo da felicidade: somos tanto mais felizes quanto mais nos esquecermos de nós próprios.

E isso concretiza-se, principalmente, numa vida familiar bem-sucedida. Já pensaram, por exemplo, os casados, na grande responsabilidade que têm? O cônjuge pôs a sua própria felicidade nas mãos do outro. Costumo recomendar aos noivos que preparo para casarem que pensem na aliança que levarão nos seus dedos. Que nome tem gravado? pergunto ao noivo. O dela. E o teu, pergunto depois à noiva? O nome dele. Pois é. Sabem o que significa? Que cada um leva nas suas mãos a felicidade do outro. Que cada um se compromete a fazer feliz o outro.

Grande parte dos problemas nos casamentos começam quando quem se casa, se casa para ser feliz (logicamente, quer ser feliz; ninguém vai para o casamento como uma ovelha para o matadouro); ou quando uma pessoa casada começa a pensar que está na altura de começar a ser feliz, porque tem direito a isso. A felicidade não é um direito, é um dom. É a consequência da entrega, de uma vida virtuosa, do cumprimento da vontade de Deus.

Por isso, também podemos pensar na alegria enorme de Nossa Senhora quando conheceu São José. Na felicidade dos esponsais de Maria e José. E da alegria do reencontro de Nossa Senhora e de São José, depois da Assunção aos Céus.

Toda a alegria da vida de Maria se pode resumir no que lemos hoje na antífona de entrada da Missa: “Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que Me revestiu com as vestes da salvação e Me envolveu com o manto da justiça, como esposa adornada com suas jóias” (Is 61, 10).

  1. “Aclamai o Senhor, terra inteira, exultai de alegria e cantai” (Sl 97)

Também nós devemos ser alegres. “Um santo triste é um triste santo”.

Alegria que é consequência de sabermos que Deus é nosso Pai, da luta por cumprirmos a Sua vontade, de nos darmos aos outros, de combater qualquer pessimismo ou tristeza.

Sabendo que há tempo para tudo, para alegrias e tempos mais difíceis. Como diz a Bíblia: “Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que  se deseja debaixo do céu: tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou, tempo para matar e tempo para curar, tempo para destruir e tempo para edificar, tempo para chorar e tempo para rir, tempo para se lamentar e tempo para dançar” (Ecl 4, 1-4).

Costumo dar um conselho que me parece precioso. Tem funcionado comigo e com muitos outros. Quando estamos um pouco tristes, às vezes sem qualquer explicação (pode ser por uma noite mal dormida, porque está um tempo chuvoso) não nos ponhamos a pensar nas razões dessa tristeza. É proibido deixar a imaginação à solta. E, muito menos, procurar compensações. Anda para a frente! Trabalha bem. E, ao chegar o final do dia, já cansado, procura dormir bem, oito horas. Mais de 90% das tristezas desaparecem. E depois reza: “Está alguém, entre vós, triste? Reze” (Tg 5, 13).

E virá a alegria que é consequência da união com Deus. Como diz São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos! Que a vossa bondade seja conhecida por todos. O Senhor está próximo. Por nada vos deixeis inquietar; pelo contrário: em tudo, pela oração e pela prece, apresentai os vossos pedidos a Deus em acções de graças. (…) Então, o Deus da paz estará convosco” (Fil 4, 4-6.9).

Mas uma alegria que é compatível com o sofrimento e a cruz que faz parte da nossa vida, como da vida de qualquer pessoa:

“Existem momentos difíceis, tempos de cruz, mas nada pode destruir a alegria sobrenatural, que «se adapta e transforma, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados». É uma segurança interior, uma serenidade cheia de esperança que proporciona uma satisfação espiritual incompreensível à luz dos critérios mundanos” (Gaudete et exsultate, 125). Por isso os mártires iam com paz ao encontro da morte.

Como gosta de citar o Papa Francisco, na vida “existe apenas uma tristeza: a de não ser santo” (León Bloy).

  1. Vamos pedir a Deus que nos ajude a sorrir

O poder imenso do sorriso. Há tempos li uma breve história que gostei e pode ajudar. Numa viagem de autocarro em que ia muita gente o ambiente era tenso, de poucas palavras. Cansados depois de um dia de trabalho, preocupações, egoísmos. Numa paragem entra uma mãe com o filho pequeno. A criança vai alegre a brincar com a sua mãe. E o ambiente muda completamente.

Assim sucedeu na história da humanidade, assim deve suceder quando estamos mal e deixamos entrar Nossa Senhora na nossa vida.

Necessitamos de caras alegres ao nosso lado. São Josemaria dizia que as famílias dos cristãos tinham que ser “lares luminosos e alegres”.

Aprendamos a sorrir. Como diz o provérbio e até vem a calhar em tempos de aumento dos preços da conta da luz, “um sorriso custa menos que a eletricidade e dá muito mais luz”. E se nos custar sorrir podemos repetir uma pequena jaculatória: “Jesus que eu faça boa cara”. Podemos estar certos de que esse sorriso é a melhor demonstração de espírito de sacrifício que podemos ter pelos que convivem connosco. Vale a pena.

  1. Uma tarefa profundamente cristã: difundir essa alegria.

Assim foi o anúncio aos pastores: “Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor” (Lc 2, 10-11).

Uma tarefa de cada cristão: difundir essa alegria. Para isso temos que nos dar aos outros e sorrir. Como disse o Papa Francisco: “A vida alcança-se e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros”. Isto é, definitivamente, a missão». Consequentemente, um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral (Alegria do evangelho, n. 10).

Que Nossa Senhora, causa da nossa alegria, nos ajude!

Pe. Miguel Cabral